quarta-feira, 25 de maio de 2011

É para lá que eu vou

Para além da orelha existe um som, à extremidade do olhar
um aspecto, às pontas dos dedos um objeto -é para lá que eu vou.
`Ponta do lápis o traço.
Onde expira um pensamento esta uma idéia, ao derradeiro
hálito de alegria, á ponta da espada a magia
É para lá que eu vou.
Na ponta dos pés o salto.
Parece a história de alguém que foi e não voltou-é para lá que eu vou.
Ou não vou? Vou sim. E volto para ver como estão as coisas.
Se continuam mágicas. Realidade? eu vos espero.
É para lá que eu vou.

Um trecho de um conto de Clarice Lispector:

É preciso não esquecer nada:

É preciso não esquecer nada;
Nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.

É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.

O que é preciso esquecer é o nosso rosto,
O nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.

O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
a idéia de recompensa e de glória.

O que é preciso é ser como se ja não fôssemos,
vigiados pelos nossos olhos
severos conosco, pois o resto não nos pertence.

Cecilia Meireles 1901-1964

Ulisses

O mito é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo-
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.

Este que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos criou.

Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecundá-la decorre.
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre.

O poema refere a Ulisses, herói lendário da Odisséia
e fundador mitico de Lisboa, onde teria aportado numa
das suas navegações.
Para Fernando Pessoa,o mito é energia que se confunde
com as origens. Nesse sentido, a vida é menos
impotante do que o mito, até porque ele é perene.




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Mar Português

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
!Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar allém da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele se espelhou o céu.

Fernando Pessoa nasceu em 1888, em Lisboa e morreu em 1935.

Mensagem foi o único livro que publicou em vida.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Declaro quatro cães

Declaro quatro cães:

um ja esta enterrado no jardim,

outros dois me surpreendem,

pequenos destruidores selvagens,

de patas grossas e presas duras

como agulhas de rocha.

E uma cadela grenhuda,

distante,

ruiva em sua cortesia.

Não se sentem seus passos

de ouro suave,

nem sua presença distante.

Só ladra tarde da noite

para certos fantasmas,

que só certos ausentes

escolhidos

a ouçam nos caminhos

ou em outros lugares escuros. Pablo Neruda (1904-1973)

Se cada dia cai

Se cada dia cai

dentro de cada noite,

Há um poço

onde a claridade está presa


Há que sentar-se na beira

do poço na sombra

e pescar luz caida

com paciência. Pablo Neruda (1904-1973)

Obrigado, violinos

Obrigado, violinos por este dia

de quatro cordas.

É puro o som do céu

a voz azul do ar.

Pablo Neruda (1904-1973)

terça-feira, 17 de maio de 2011

Sem titulo

Não tens como apagar um incêndio-
Coisas que são inflamáveis
Podem queimar por si, sem vento,
Ao longo da noite mais calma.

Não tens como dobrar as águas,
Nem quarda-las na gaveta-
Pois os ventos o descobririam-
E contariam a teu soalho de cedro.
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A dor tem um elemento em branco

E já não consegue lembrar

Quando começou, nem se houve um tempo

Em que não existia..


Emily Dickinson (1830-1886)

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Nfoes: Motivo da Rosa

Nfoes: Motivo da Rosa: "Por mais que te celebre, não me escutas, embora em forma e nácar te assemelhes á concha soante, á musical orelha que grava o mar nas intimas..."

Motivo da Rosa

Por mais que te celebre, não me escutas,
embora em forma e nácar te assemelhes
á concha soante, á musical orelha
que grava o mar nas intimas volutas.

Deponho-te em cristal, defronte a espelhos,
sem eco de cisternas ou de grutas...
Ausênsias e cegueiras absolutas
ofereces ás vespas e ás abelhas,

e a quem te adora, ó surda e silenciosa.
e cega e bela e interminável rosa
que em tempo e aroma e versos transmutas!

Sem terra nem estrela, brilhas, presa
a meu sonho, insencivel á beleza
que és, e não sabes, por que não me escutas...

Cecilia Meireles.

terça-feira, 3 de maio de 2011

De joelhos

Bendita seja a mãe que te gerou".
Bendito o leite que te fez crescer.
Bendito o berço aonde te embalou
A tua ama, pra te adormecer!

Bendita essa canção que acalentou
Da tua vida o doce alvorecer...
Bendita seja a lua que inundou
De luz a terra, só para te ver...

Benditos sejam todos que te amarem,
As que em volta de ti ajoelharem,
Numa grande paixão fervente e louca!

E se mais que eu, um dia, te quiser
Alguém, bendita seja essa mulher,
Bendito seja o beijo dessa boca!!

Frorbela Espanca.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Nfoes: Palavras ao vento.

Nfoes: Palavras ao vento.: "Desejo fazer deste blog. Um recanto de paz e aconchego. de bem-querer e alegria. O mundo é o seu caderno, as páginas onde vôce faz..."

Sem titulo

Mais fácil encontrar
Um amigo que é sombra para os dias quentes,
Do que algum outro, caloroso,
Para as horas frias da mente.

Voltado um tanto para o leste, o catavento
põe em fuga as almas de musselina;
E se mais firmes são os corações de seda
Do que os feitos de organdi,

A quem culpar? Ao tecelão?
Ó os enganadores fios!
No paraizo, as alfombras
Tem urdidura invisivel.
Emily Dickinson (1830-1886)

Sem titulo

Banir a mim mesma,
Tivera eu esse dom!
Inexpugnável fosse a minha fortaleza,
Ante toda audácia.

Uma vez, porém que eu mesma me assalto,
Como terei paz
Amnão ser sujeitando
A consciência?

E desde que somos monarcas um para o outro,
Como poderei alcançá-lo
A não ser abdicando
De mim mesma?

Emily Dickinson. (1830-1886)

Sem titulo

Quando os diamantes são mito
E os diademas, uma lenda,
Broches e brincos semeio
E cultivo para venda.

E embora meu parco renome,
Minha obra- um dia estival- ja teve mecenas:
Primeiro foi uma rainha;
Depois uma borboleta.

Emily Dickinson. (1830-1886)